domingo, 24 de janeiro de 2016

A Tempestade

Querida Matilde!

Eu sei que não recebes uma carta minha há uns dias e por isso desculpa-me. A verdade é que te escrevi duas, mas achei que poderias ficar com uma ideia errada daquilo que tenho para te dizer. Estive muito zangada e muito triste mas agora com mais calma e com a cabeça e o coração arrumados, escrevo-te de novo.
Estes últimos dias foram difíceis e dolorosos. Precisei de espaço e tempo para mastigar, engolir e digerir aquilo que os meus olhos devoram, não consigo acompanhar a velocidade.

Aquela noite… Assustadora e violenta.

Era a meia noite de Domingo, dia 17, estávamos prontas para começar o turno. Por volta da 1h, a reunião estava a começar: resumo do dia; noticias sobre as fronteiras, o tempo e os Ferrys; distribuir tarefas e começar. Éramos 8.

A tempestade chegou sem dizer nada a ninguém, por esta razão, os barcos não chegaram no sábado. Os traficantes começam a ter noções básicas de perigo. Mória estava calmo porque a maioria dos refugiados estavam no Porto à espera do Ferry para Atenas.
Fui para o Porto. O  nosso carro foi abastecido com águas e laranjas. A Mariana e eu chegámos. Chegámos aquilo que parecia ser um pavilhão abandonado de um filme de terror: janelas partidas e os vidros no chão, buracos no teto por onde entrava a chuva, cheiro a lixo porque o lixo era todo o chão e os refugiados dormiam camuflados algures num buraco. Éramos duas para 500.

As horas em tempo devagar, passaram.
São agora 5h da manhã. O Ferry deveria partir às 6h mas o tempo está cada vez pior. Começam a chegar mais e mais refugiados. A Mariana e eu a explicar a situação vezes e vezes sem conta “o ferry não vai sair por causa da tempestade”, uns compreenderam, outros nem tanto.
As perguntas são infinitas, enquanto todos juntos tomamos um banho de chuva mas não queremos saber, eles precisam de continuar o caminho, têm medo que as fronteiras fecham. Eu gritava “Algum tradutor por aqui?”, aparece sempre algum salvador da comunicação.
A confusão foi a Rainha e mau tempo o Rei. Estiveram de mão dada toda a noite.
Voei, mesmo mat. Veio um senhor, que pegou em mim e levou-me pelo braço até às paredes do pavilhão.
Não tínhamos nada para dar. Cobertores, roupa seca, leite para os bebes e comida. Aquilo que tínhamos no carro não chegava para todos, decidimos esperar pela equipa. Ligámos ao coordenador “precisamos de mais pessoas aqui, precisamos de comida e impermeáveis”.
Enquanto isto, a Zuhour, uma Síria pegou-me nas mãos e pô-las debaixo da sua camisola,  não tinha tempo para aquilo. Tantas coisas para fazer: explicar a situação, ver se alguém precisa de um médico, agarrar pontas soltas, enfim logística. Tirei as mãos, “não”, agarrou-me e disse ”vais ficar doente, primeiro aquece-te”.

Ás 6h e pouco chegou o resto da equipa com comida. Fiquei na fruta, foi doloroso, foi uma selva. Pessoas com fome e eu a dizer que não. “Só mais uma banana, tenho uma família, a minha mulher está grávida”, “não posso dar mais”. E não, e não, e não quase sempre.

Eram 7h e a logística para mim acabou, o coordenador já cá estava. Fui brincar com as crianças. A Mariana e eu distribuímos os brinquedos que tínhamos comprado. Pela primeira vez, crianças a rir e a brincar, elas esquecem-se que as crianças brincam.

Eram 8h eu estava a ficar cansada.
Uma mulher estava a chorar encostada a uma parede e tinha os dois filhos pequenos a brincar à sua frente. “As-salam, posso sentar-me?” Agarrei a mão da mulher, ela não falava inglês e eu não falava árabe mas as duas falávamos. Dei-lhe umas bolachas e um abraço forte. “As-salam alaykom”.
A fazer uma das voltas pelo pavilhão do terror, passei por este homem demasiadas vezes, sentado no chão, agarrado aos joelhos e com o olhar fixo. “As-salam, posso fazer alguma coisa por si?”, levantou a cabeça “não, obrigado”. Tenho pensado nestes homens que estão sózinhos, como se não fosse por si só uma viagem difícil, são os últimos em tudo, quando calha nem há para eles.

São 9h o turno está quase a acabar! Não aconteceu desta maneira... Eram 10h não havia voluntários do turno seguinte e os da noite foram embora mas a Mariana, a Phoebe e eu ficámos até que alguém aparecesse. Chegámos a casa depois das 11h , e fomos dormir.

Acordámos de noite, não conseguíamos acreditar naquilo que tinha acontecido. A única das milhares de organizações existentes na ilha que se preocupou com os refugiados para além dos Better Days for Mória, foram os Médicos sem Fronteiras. A ACNUR passou pelo pavilhão com três camionetas, mas com certeza achou, que estava tudo controlado e foi embora…

Sabes Mat, sei que aquilo que te escrevo, é simples demais para a verdade da realidade. Não sei fazer melhor, acho que as palavras que são precisas ainda não foram escritas por ninguém.
Quando te digo que estas pessoas chegam geladas, chegam não só com frio mas molhadas, descalças, e a tremer. Chegam sem cor.
Quando te digo que as crianças não brincam é porque depois de tudo o que passa, não tenho certeza de serem crianças ainda.
Quando te digo que aqui chegam com esperança, é porque estão há dois anos a juntar dinheiro para trazer a família, vêm por traficantes que os trataram mal, apontam pistolas, e não lhes dão de comer.
Quando te digo que estas pessoas sofrem, não compreendes a dimensão da palavra porque passas a sofrer tu também com a crueldade do mundo. O coração fica apertado.
Ficas sem respirar.

Eu nem desconfio das vidas dos refugiados, da bagagem que carregam, mas sei que são tão humanos como eu e sentem da mesma maneira que eu sinto. Tenho esperança que o sonho de viverem em paz não lhes seja destruído por nós. Por mais ou menos interesses económicos que tragam, não podemos permitir que a vida lhes seja roubada por estarem no sítio errado à hora errada.

Um beijinho grande,
Matilde





sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Festival


Olá Matilde,


Hoje trago-te uma reportagem que descobri sobre um Festival perto de mim, diz-me o que achas que te parece…


“Se és um Festivaleiro, isto é para ti!

Somos o “THE REGISTRATION FESTIVAL”, estamos em Mória! Podes chegar até nós apenas de barco. Mas acredita vai ser uma aventura, terás de comprar um bilhete de barco na Turquia,  e virás provavelmente com mais 60 pessoas, estarão por vossa conta no meio do Mediterrâneo. Se te sentires cansado, cuidado, o barco pode virar a qualquer momento. Se te molhares, não te preocupes, vamos dar-te roupa seca quando aqui chegares! Chegas à praia: “Welcome to Europe”.

Mória pode ser um grande confusão se não estiveres habituado, mas acredita, se és Festivaleiro, queres passar por aqui! Este é o único Festival na Ilha onde te podes Registar, depois podes seguir o teu caminho.

Quando aqui chegares, vais poder escolher o palco consoante o que te identificas mais: se és da Síria ou do Iraque vais para o palco principal; se és do Afeganistão, Somália, Paquistão e Irão vais para o palco secundário; se és de qualquer outro sítio que não estes e se o teu país não está em guerra, podes escolher qualquer um dos palcos mas com a certeza de que vais voltar para trás, não vais ser registado. Depois de escolheres o teu palco, podes dirigir-te à tenda da roupa para trocares a que trazes molhada, podes passar pela tenda da comida se quiseres trazer um chá e umas bolachas… Aviso-te, o palco principal está sempre cheio e pode demorar alguns dias, não deves perder muito tempo se queres continuar o teu caminho!

Festivaleiro, se trouxeste o teu bilhete contigo, o teu registo vai ser fácil de realizar junto da Polícia. Se não o trouxeste porque  perdeste a tua mala no mar, vais ter de ser entrevistado pela Frontex para garantir que és de facto, um Festivaleiro!

Dentro do Recinto, temos para te oferecer várias oportunidades:
1)Se vens com a tua Família- podes ficar no “Family Compound”
2) Se és criança e estás sozinha- vais para o Save the Children
3) Se és mulher e estás sozinha- podes ir até ao “Women Friendly Space”
4) Se és homem- podes ir até à tenda grande da ACNUR
5) Se não tiveres espaço- vais ao “Danish Council Refugee”
6) Se estiver tudo cheio- vais ter de dormir ao relento, pede um cobertor na tenda da ACNUR, junto da tenda do chá e água.

Temos como principais patrocinadores: ACNUR, UNICEF, MÉDICOS DO MUNDO, MÉDICOS SEM FRONTEIRAS, HPP from UK, CÁRITAS, DANISH COUNCIL REFUGEE, SAMARITAN´S PURSE todos estes têm o seu próprio staff, têm também suplementos para te oferecer consoante as áreas em que trabalham.

Como Staff, temos a trabalhar connosco várias equipas: Better Days for Moria, Starfish, I58, Mercy Worlwide Trust, Light House, Tradutores. Estes estão vestidos com coletes amarelos fluorescentes, se precisares de alguma coisa, vai ter com eles, nem tudo será melhor mas tudo será mais fácil! Acredita…

Sendo tu um Festivaleiro, vais ter ao teu dispor:
- Wifi (24 horas);
- local para carregares o telemóvel (24 horas);
- chá e água (24 horas);
- comida (depender do número de festivaleiros);
- roupa (se estiveres molhado);
- cobertores (se estiveres com frio);
- local para dormir (depende do dia em que venhas e da hora a que chegues).

Quando o teu bilhete for aprovado no palco, o Festival terminou para ti! Podes apanhar o autocarro para a cidade que custa 1euro. Na cidade compra o bilhete do Ferry para Atenas, mas cuidado, pode demorar alguns dias até conseguires um lugar no barco.

Festivaleiro, estamos à tua espera!”

Conseguiste perceber Mat? Como em todos os festivais, isto é uma confusão! As condições que temos não são boas. Fazemos o melhor que podemos com o que temos mas não estamos a conseguir dar a dignidade merecida à condição humana.

É triste ver crianças molhadas, geladas quando saem dos barcos e não ter sapatos para lhes pôr nos pés. Mulheres a emer e não ter casacos para as aquecer. Homens que não dormem há 3 dias e não ter um sítio onde possam descansar. Não temos melhor. Temos o que temos, ainda assim podemos fazer melhor.

Só te sei dizer que estas pessoas sofrem muito. Custa olhá-los nos olhos porque dentro deles carregam o mundo. Vejo que sofrem e não quero ver. Tento ser alegria, ser sempre sorriso mas às vezes não consigo. Quero chorar, vou de cabeça baixa porque apenas não quero ver.

A miséria humana é chocante. Como pode uma vida não ser bem tratada? Aqui, não são mal tratados mas também não são bem tratados. São apenas tratados e já isso é difícil. Os voluntários esforçam-se por fazer melhor e melhor todos os dias mas todos os dias chegam milhares e nunca é suficiente.

Um beijinho grande,
Mat




segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A Família


Olá Mat!
Desculpa só escrever-te agora, mas desde que cheguei ainda não consegui parar. Tem sido muito intenso e ainda estou a adaptar-me…Cheguei à ilha há 3 dias mas já vivi tantas coisas que parece que cheguei há uma semana! Tenho muitas coisas para te contar sobre o que se passa aqui mas hoje quero principalmente escrever-te sobre a família. Eu acho que é a melhor coisa do mundo!

Para que saibas, afinal não sou uma, somos três! A Mariana, a Phoebe e eu! Somos uma equipa, tomamos conta umas das outras.

A Mariana é portuguesa, é professora de Psicologia na Católica do Porto. Tem sido uma ajuda importante para mim, conhecemo-nos 2 dias antes de eu chegar a Lesbos pelo Facebook e rapidamente a Mariana marcou um quarto para mim no mesmo hotel. No primeiro dia, eu estava muito cansada porque a viagem tinha sido difícil e demorada, a Mariana achou por bem fazer-me ver que eu precisava de dormir e que não precisava de ficar no campo, “precisamos de tomar conta de nós em primeiro”.

A Phoebe é Australiana, e tem 20 anos! Está a estudar Direito. Informou os pais que vinha para a Grécia ajudar os refugiados… Hoje foi procurar uma lavandaria onde nós pudéssemos lavar alguma roupa, não conseguiu mas deu por terminada a missão e comprou as mais engraçadas cuecas.

As três juntas agora partilhamos o quarto, o carro, as refeições! Mas mais importante, divertimo-nos e partilhamos esperanças, preocupações e desabafos. As horas aqui não são as do tempo normal,  passou pouco tempo mas muito para nós. Já fazemos piadas sobre as outras.
Elas são a minha família aqui.
Olha Mat, tu sabes como a minha família é importante para mim, aliás, tu sentes o mesmo! Os meus irmãos são os melhores e os mais bonitos presentes que os meus pais me podiam ter dado. Não consigo pôr em palavras aquilo que sinto por eles e acho que tu também não… Eles ocupam uma parte grande do meu coração. São meus e eu deles.
Penso muito nos meus irmãos, não principalmente aqui mas sempre. E muitas vezes, estou a escolher preferidos pelas características que têm. A verdade é que são todos os meus preferidos. Eles são todos tão diferentes.

O Vasco, o meu irmão mais velho e o alternativo! Aquele que quando o nosso pai morreu não me deixava sair de casa de calções porque achava que isso era ser pai, é o mais maluco de todos… Ele estudou cinema e agora está comigo na Católica, contesta tudo e tem sempre uma palavra a dizer mas gosta de mim. Acorda sempre tarde porque vive intensamente de noite e vem irritar-me às quatro da tarde com brincadeiras, parece um bebé mas eu riu-me com ele. Ele é o mais protector.
Aqui no campo, existe um sítio que se chama “Family Compound”, o sítio onde as famílias dormem mas nos dias mais complicados, só mulheres e crianças podem lá ficar. Estava a dar umas informações a uma senhora da Síria sobre como apanhar o Ferry para Atenas no dia seguinte, a traduzir-me estava uma miúda também da Síria. Ela tinha a minha idade. Quando terminámos este assunto, o irmão dela estava do lado de fora das grades. Não podia entrar, não havia espaço, eles tinham de se separar. “Quero estar ao pé de ti, não quero ficar sozinha”, “aí estás melhor, estou com os nossos irmãos mas está muito frio e não temos sítio para dormir. Aí tens luz e um sítio quente, amanhã venho buscar-te à porta para nos registarmos”, “eu não quero, prefiro ter frio e ficar com vocês”, “Não pode ser, gosto de ti, até amanha”, ele foi embora e ela entrou no contentor, eu fiquei congelada no mesmo sítio a pensar no Vasco. Ele faria o mesmo por mim. Gosto dele.


O Afonso, o chato! Ele tem 15 anos e está na idade das asneiras… Está sempre a pedir beijinhos, é o mais alto, o mais magro, talvez o mais querido mas ainda assim, o mais chato! É o mais parecido com o nosso pai, é um Gourmet… Se ele é chato para mim eu tenho a certeza que sou tão ou mais chata com ele, porque o adoro. Tu conheces bem o Afonso, não preciso de te explicar, eu sei que ele precisa de mim. Adora o Sporting e acha que sabe dançar!
Aqui no campo, penso no Afonso muitas vezes quando vejo miúdos que da mesma idade ou perto, chegam sozinhos. Alguns perderam-se, outros foram mandados pelos pais, uns têm dinheiros, outros perderam o passaporte. São agora meninos de ninguém. Procuram sozinhos um sítio onde possam ter oportunidades. Dizem que têm 18 anos para não terem de ficar sobre a guarda de alguma entidade, querem continuar o caminho mas nós sabemos que ainda são crianças com bigode. Penso como seria se o Afonso estivesse numa situação destas, espero que nunca. Gosto dele.


A Guiomar e o Mateus, são gémeos! Eu não os vejo tantas vezes como gostava porque são filhos do meu pai e por isso vivem com a mãe deles. Os gémeos nasceram prematuros, e lembro-me de os ver na incubadora muito pequeninos.
Lembrei-me deles, quando chegou ao campo um bebé de três meses, muito pequeno, tinha feito a mesma viagem de barco que os adultos e estava inconsolável. Lembrei-me da incubadora, os gémeos ao menos não tinham frio e não precisavam de roupa, este bebé tinha vindo de barco durante a noite com uma manta apenas. Gosto deles.

O João, o meu irmão mais querido! O João faz hoje 10 anos, por isso parabéns mano! Ele gosta mesmo deste dia, fica feliz por juntar os amigos e a família por causa dele. Enquanto me preparava para vir para cá e sabendo a importância que o João dá a este dia, “Joãozinho, a mana não vai estar cá nos teus anos, ficas triste?”, “Bem, Matilde, fico triste mas eu acho que é por uma boa razão e os refugiados precisam mais dos teus beijinhos do que eu”. Ele é muito certinho e mais ainda envergonhado, todos querem ser amigos dele. É ferranho do Benfica.
Lembrei-me do Joãozinho quando chegou uma família ao “Family Compound” com três crianças pequenas. Não tínhamos mais espaço para pôr as pessoas a dormir, era tarde e estavam a chegar barcos. Conseguimos inventar e esta família ia ficar a dormir no chão dentro do contentor, mesmo à porta. Fui buscar dois sacos cheios de cobertores para os poder pôr no chão e fazer uma camada mais quente e espessa. Quando lá cheguei, apareceu um menino da mesma idade do João. Estava a dizer-me que era dessa família para eu lhe dar os cobertores. Eu dei… Foi quando me apercebi que a criança pertencia a outra família. Tive de lhes tirar os cobertores, “estes são para uma família que está a dormir no chão”. Devolveram e disseram “ok, no problem”. Pedi muitas desculpas porque sei que também precisavam mas aqueles não lhes estavam destinados.

Mais tarde, a mesma criança vem com um amigo a pedir-me desculpa e dá-me um aperto de mão, eu faço uma festa cabeça, digo que não faz mal. Penso o que faria o João no lugar deste menino que só queria ajudar a sua família. Não sei se o faria por vergonha mas também sei que ele dá muita importância à nossa família. Continuo a pensar…Só sei que esta criança não deveria estar a passar por isto. Gosto dele.


O Vicente, tem todos os adjetivos! Derreto-me. Para ele nem tenho palavras, leva-me aos extremos. Tudo depende dos dias,  nunca se sabe como o Vicente vai acordar. Tem 7 anos e é um regila. Ele consegue fazer o que quer de mim, gosto de o irritar porque dessa maneira consigo que ele venha atrás de mim, provavelmente para me dar um pontapé, mas ao menos vem! Gosto quando ele grita “a Matilde é chata”. Só me deixa dar um beijinho por dia, o resto tem de ser à força! As conversas mais demoradas que consigo ter com o Vicente são sobre futebol, ele está a descobrir este mundo, acha que eu me interesso mas só faço perguntas para continuarmos a falar.
Lembrei-me dele quando estava a conversar com uns senhores que tinham chegado nesse dia ao campo. Estavam à espera para se registarem, vieram pedir-me cobertos e ficámos ali, a conversar. “where are you from Matilda?”, “Portugal”, “ohhhh CRISTIANO RONALDO”, foi a festa, começámos a fingir que estávamos a fazer passar a bola uns aos outros… Ri-me a pensar no Vicente, acho que ele ia gostar de saber isto! Gosto dele.


É difícil olhar para estas famílias e pessoas sozinhas e saber que pertencem a alguém. São de alguém. Como eu sou da minha família. Se fosse a minha família a estar nesta triste, dura e pouco clara situação, gostava que alguém lhes pudesse calçar uns sapatos quando têm os pés molhados, dar uma manta quando estivessem com frio, um sorriso quando já poucos sorriem, carregar as malas quando os homens já não têm força nos braços, pegar nos bebes quando as mães já não os conseguem acalmar… Eles não pedem muito, ou quase nada para aquilo que estão a precisar, pedem para a sua família e coisas simples. Não querem confusão, confusa já está a vida deles.



Um abraço apertado,
Matilde



sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A caminho da Grécia


Querida Matilde,

Aqui estou eu a escrever-te. São 7h10 da manhã e estou a caminho de Lesbos.

Fui avisada de que é difícil fazer isto sozinha. É preciso falar com alguém sobre aquilo que sentimos e vivemos. Assim, como vou sozinha, enquanto te escrevo, obrigo-me a repensar o meu dia e arrumar -me nas gavetas certas! Decidi que quero fazer isto contigo porque sei que estás sempre comigo. Alinhas?

Antes de te contar como está a correr, quero dizer-te já, que sinto que esta viagem não está nem foi preparada por mim. Foi tudo tão rápido, aconteceu tudo de uma maneira mais ou menos seguida sempre nas alturas certas e as peças do puzzle começaram a juntar-se. A ajuda veio de todos os lados, a generosidade é realmente uma coisa boa e faz o mundo andar para a frente.

Ontem recebi uma mensagem que foi importante para que tudo fizesse sentido: nem queria acreditar. Sabes que eu tenho a mania que posso mudar o mundo. Sabes também que fui tão divertidamente gozada no Carraças este ano, mas foi engraçado porque no final do campo já todos queriam mudar o mundo (tios, animadores e miúdos)!! Mas bem, para além disto, sabes que eu tenho uma Santa que me enche as medidas: a Santa Catarina de Sena, eu gosto tanto dela que tenho a plena sensação que é minha amiga, falo dela com o mesmo amor que falo sobre as minhas amigas mais próximas. E claro, sabes perfeitamente que a frase que ela disse é tão dela como minha.

Um dia, dei um presente a uma amiga que estava a precisar de um reencontro. Na verdade foram vários mas um deles era uma caixa com frases, para que ela tirasse quando quisesse. Ontem à noite recebo a seguinte mensagem “Esta foi a frase que me calhou hoje quando fui à caixinha cor-de-rosa: “SE FORES AQUILO QUE DEVES SER, PEGARÁS FOGO AO MUNDO INTEIRO (Santa Catarina de Sena)””. Olha o espetáculo… Isto descansou-me porque não me canso desta frase!

Mas olha, agora quero contar-te aquilo que estou a sentir neste momento para que não te esqueças de como eu fui! Nem imaginas, estou tão cansada… Esta preparação tem sido de loucos, estou num stress tão grande que tenho dormido muito pouco, o medo e os nervos estão a dar cabo de mim! Mas tenho as pessoas certas ao meu lado…

Hoje dormi uma hora, que dor de cabeça infernal… Mas não penso nisso, não consigo de tão enjoada que estou!! Eu sei que pareço uma egocêntrica mas deixa-me dizer-te, estou pânico, isto é difícil sabes? É uma coisa que quero muito fazer mas tenho o coração tão apertado… Não te consigo descrever melhor que isto, quando souber pôr em palavras, acredita, serás a primeira a aperceber-te que afinal as coisas têm nome!

Mas o mais importante é que, o meu coração pode estar apertado mas é um coração aberto! Aberto para quem precisar: refugiados, voluntários já cansados e gregos antipáticos!

Mudar o mundo é poder fazer diferente mas ainda assim fazer simples… Sei que vir para um campo de refugiados não é nada de pequeno mas tenho consciência de que tudo aquilo que vou fazer vai ser pequeno para a dimensão da situação. Acredito que mudar o mundo é apenas olhar os pormenores e fazer valer-lhes a importância que têm! Vou para aquilo que for e o que vier será aquilo que vou fazer!

A partida aconteceu com um imprevisto que poderia ter sido muito chato mas porque de facto isto está a acontecer como o planeado, posso dizer-te que o meu anjo da guarda está a fazer-se valer... Estava a despedir-me da minha mãe, quando por meio de um abraço vieram palavras queridas que, por serem da minha mãe e por me ter transformado em qualquer coisa de porcelana durante os últimos dias me deixaram nervosa e a chorar!
Fui logo embora e deixei o casaco para trás. O casaco que tinha comprado ontem por ser tudo aquilo que eu precisava para estar a trabalhar nos campos… Fui em frente e não olhei para trás.
Não dei conta logo, continuei pelos corredores do aeroporto a chorar, quando percebo que o telefone está a tremer. No mesmo segundo sei que não tenho o casaco comigo… Atendi, a minha mãe que estava furiosa e dizer que isto já estava a começar PÉSSIMO! Fui a correr até aos seguranças mas disseram-me que dali era impossível passar… Um senhora segurança, a Madalena, percebeu que eu estava aflita e perguntou-me "o que posso fazer por ti?", contei-lhe, e  ela imediatamente “como se chama a tua mãe?”, “Marta”, “Não saias daqui, vou buscar o teu casaco”, a Madalena voltou com o meu casaco e eu, feliz fui a correr para a porta de embarque, tinha 4 minutos…

Fiquei sentada ao lado de um casal tão antipático, tiveram que se levantar para eu me sentar e ficaram chateados, eram alemães… A meio da viagem e porque pronto, venho com boas intenções e arranjo logo inimigos, não pode ser! Atenta ao pequeno-almoço vejo que eles comem manteiga com pão, o que só lhes deu para uma metade! Comi o meu pão sem nada e ofereci-lhes a minha manteiga, oiço um “DANKE”, pronto: não fomos amigos até o avião aterrar. No fim, mostram-se sinais de compaixão “can I help you?” diz a  metade masculina do casal. No final fico irritada: a manteiga foi para o lixo!

São 11h e estou agora em Frankfurt, faço aqui a minha primeira escala.

Saio do avião um bocado baralhada, e concentro-me: perdida e sozinha, agora é que começa, DESENRASCA-TE MAT! Tenho a mochila às costas e parece que estou num filme. Mesmo. Fico parada no meio de tanta gente mas só vejo chineses, só oiço alemão, falo com quem? Ninguém! Pronto. Tirei o Bilhete para procurar a porta de embarque mas estava frita, este aeroporto é gigante.

Mas mais uma vez, o anjo da guarda atento: começo a ouvir falar português, coooorrro para eles! “Olá olá, também sou portuguesa!”, “(gargalhadas) Eu não disse?? Os portugueses são como o Espírito Santo, estão em todo o lado!”, rimos todos juntos… E ali estávamos nós: um grupo de velhos numa excursão pela Europa, uma animadora da Disney que trabalha nos cruzeiros a fazer ora de Minnie ora de Pocahontas e uma miúda que acha que pode mudar o mundo, mas todos portugueses! Bem, lá nos ajudámos, e despedimo-nos patrioticamente!

Embarquei de novo e dormi o voo todo, só preciso de te dizer que me deram um chocolate com o meu nome!! A mim e a todos os passageiros...

Ai Mat… Acordei em Atenas e agora sim estou a desesperar. Aterrei há um bom bocado, já me perdi e ainda são 18h50… O que vou fazer até amanhã aqui? 

Este aeroporto é horrível! Estou a ficar maldisposta e irritada: não tem fichas para ligar o computador, a internet tem  regras parvas, as pessoas são antipáticas (passaram-me 5 vezes à frente na fila para pedir um chá), a arquitetura é um desespero (só se vês Portas de Embarque para cada lado que olhes... Mas só portas porque pessoas, nem vê-las!). Isto é tão grande que estou completamente sozinha numa sala (há horas)…
A única coisa boa que te posso dizer, e isto vais gostar, é que aqui existe um McDonald´s com aquilo que tu mais gostavas e já não existe em Portugal: Tostas no Happy Meal!!! Pedi uma por ti!

Olha Mat, falamos depois, já são 23h45 e o meu voo é só amanhã às 6h, tenho de ir confirmar que não estou num deserto mas num aeroporto, vou arranjar alguém que queira silabar comigo!

Um beijinho grande,
Matilde


domingo, 23 de novembro de 2014

Carta a um pai

Querido Pai,

Hoje fazia e faz 50 anos. Por todos os dias que foram vividos e por todos aqueles que vivemos por si, muitos parabéns!

‘Se calhar não morremos enquanto alguém sentir por nós’- Uma vez li esta frase num livro e desde ai tem sido muito claro para mim não deixar esquecer o meu pai, pelo menos no meu coração.

Quando penso no cancro e na doença horrível que foi, nos tratamentos difíceis de suportar e na cura que não chegou, lembro-me de sentir que o pai nunca morreria até que morreu e eu não senti nada. Nada. Só um vazio frio e escuro. Durante algum tempo até acho que nem estive cá, achei que o silêncio apagava tudo… Olho para trás e percebo que era a dor de perder um pai dentro de mim, mas este é o problema da dor: ela exige ser sentida! E eu, tive de perceber que o meu pai já não sofria da existência enquanto pessoa mas eu, pelo contrário, sofria enquanto pessoa sem a existência de um pai sem cancro.

Passaram-se uns tempos e eu apercebi-me que tinha a alma afogada em areia, quase sufocada e foi ai que escolhi chorar. Acho que o pai percebeu a minha ideia e discretamente passou a ser além de pai, professor de lágrimas: deixa-me chorar quando preciso, diz-me quando não posso mas mais importante, ensinou-me que o sorriso é das melhores coisas no mundo- é fácil sorrir- e melhor ainda, é aquilo que de mais barato podemos dar aos outros, por isso, não há desculpas, há sorrisos! Nestas alturas em que o Sr. Prof. me permite umas lágrimas, eu choro: choro porque preciso de si, porque tenho saudades suas, porque é difícil viver sem pai, porque os meus irmãos crescem sem si, porque a vida devia ser vivida ao lado de um pai e porque nada posso fazer, choro. Eu acho que sou alegre, contudo sei chorar e isso acho que me permite ser eu, não é proibido chorar e não faz de mim mais fraca pelo contrário, faz de mim a Matilde que chora porque precisa de lavar a alma porque os anos passam mas a dor não, a dor é pesada e faz caminho comigo. Claro que se vive com ela e BEM, mas ela não deixa de existir porque o meu pai também não há-de voltar.

Às vezes penso que é tão difícil ser sua filha sem o pai aqui… Eu sei que é chato mas é verdade! É que o pai e o seu nome viveram tantas coisas juntos e tantas coisas com tantas pessoas, que é tantas vezes lembrado! E eu, que não sou o pai, que me chamo Matilde mas que também tenho o seu nome, Salema, e que também vivi muitas coisas com o meu nome, sou só a sua filha, mas muito contente por isso! Com isto, quero explicar-lhe que me é difícil ser como o pai, porque as pessoas gostavam de si por aquilo que era, pela preocupação constante e pelo olhar verdadeiramente para com outro.

Não acredito em heróis, não acho que o pai tenha sido um herói, acho sim que o pai viveu a sua vida com a vida que a vida lhe deu e desta maneira foi um exemplo para mim: dois cancros, inúmeros tratamentos, várias operações e muitos dias difíceis. Lembro-me de lhe perguntar como o pai estava e a resposta era: ‘não tou bem mas há vidas piores’, e hoje, quando penso no porquê desta minha vontade maior que todas as outras em querer ser enfermeira, é por causa destas vidas- todas as vidas. Eu não sei explicar o que é a vida mas sei que o pai se agarrou a ela enquanto pode e isto é porque a vida é especial, só pode e não tenho dúvidas.

Acredito e faz-me sentido que a vida só pode ser vivida pelo amor aos outros, e os outros são quem conheço e quem não conheço, todos aqueles com quem um dia ainda me vou cruzar. Para mim, a vida tem sentido, eu acho que toda a gente merece uma parte de nós, qualquer parte, todas as pessoas, qualquer pessoa!

É importante dizer-lhe pai, que vivo bem e aceito tudo quilo que aconteceu, eu sou feliz  e costumo dizer que, eu sou assim, a Matilde que todos conhecem porque o meu pai morreu, por mais horrível que isto pareça, foi a força da circunstância, eu cresci muito, aprendi muito e sou aquilo que quero ser ou ainda a caminho disso. A verdade é que os anos passam e a vida anda, e muitas vezes é assustador quando descubro, em pânico, que não me consigo lembrar da sua cara. São estes os momentos mais difíceis de não se ter pai. É nestas alturas, em que estou assustada que me perguntam o que se passa e eu nada digo mas, dentro de mim o pai grita-lhes: 'DE MIM ELA PRECISA DE MIM'.

Querido pai, dizer-lhe mais uma coisa. Não fique triste, não herdei o seu carinho nem o gosto pela cozinha, pelos pratos e pelos sabores, acho que sou até um bocado esquisita é pouco aventureira mas por batatas fritas sou maluca... Contudo herdei a sua paixão pelas pessoas, por fazer os outros felizes e pelas pequenas coisas. A vida é boa pai! E por isso, esta é a minha primeira carta, mas muitas mais virão porque aquilo que eu mais gosto neste mundo são as pessoas e é assim que eu quero ser feliz!

Sei também que o pai costuma vir ver-me e por isso muito obrigada, sei também que a dor é inevitável na vida e por isso, obrigada por passá-la comigo!

Um beijinho, da filha que o adora e que tem muito orgulho em si!
Matilde


P.S. 'Haja o que houver eu estou aqui!'